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A língua está em mim, me perpassa, faz parte da minha formação como ser social inserido num grupo. Compõe ainda a minha própria formação acadêmica já que resolvi após o primeiro curso superior (Administração), cursar Letras. Essa língua me representa em todos meus conflitos, pois suas características são iguais as minhas, um ser multifacetado, de exterior sóbrio e estático, mas no íntimo um turbilhão em movimento. Assim como um rio congelado que apresenta a sua superfície estática, mas o seu interior está sempre em movimento, num curso perene. Capacidade de adaptação e compreensão com singularidade e regionalidades tolerantes como próprios à língua. Escrever é para mim, como respirar, sinto essa necessidade e é através da escrita como afirmou Aristóteles que transitamos desde o terror até a piedade de nós mesmos e do outro. Esse ofício da escrita nos eleva, nos projeta, nos ressignifica quando tocamos o outro com as nossas palavras, seja no universo ficcional, biográfico ou autobiográfico. Escrever é uma necessidade, escrever é transpirar no papel as nossas leituras.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

SAMUEL RAWET / MOACYR SCLIAR





ANÁLISE DO CONTO ESCALPE DE MOACYR SCLIAR.

Análise comparativa entre os escritores Samuel Rawet e Moacyr Scliar convergem nas obras autoficcionais em que as fronteiras racionais entre vide e obra, se mesclam, compondo um híbrido de ser real e ser imaginado.
Podemos perceber na escrita destes autores a figura do judaísmo e dos judeus que as obras evocam. Essa imagem é formada em duas instâncias diferentes: a voz narrativa pode se identificar como judaica, o que acontece muitas vezes em textos autobiográficos ou autoficcionais, ou essa voz pode criar personagens e atmosferas judaicas nas quais transpire uma visão específica sobre o judaísmo.
Nenhuma das escritas estudadas projeta  exclusivamente uma imagem de judeu clichê, seja tal clichê o construído pela comunidade judaica ou o construído pelo grupo maior. Sendo a voz em primeira ou terceira pessoa, as obras analisadas revelaram diferentes graus de tradução, graus esses indefiníveis, pois fora de uma escala precisa. Vemos judeus desscritos que autofagicamente criam, a partir da representação tradicional do judaísmo, diversas maneiras de ser judeu. Suas escritas demonstram o poder da palavra na projeção de um imaginário de uma cultura que está em trânsito. Para uns, esse trânsito é prejudicial e corrosivo, empobrecedor; para outros, essa ausência de imobilidade é que permite a sobrevivência de um legado em suas diversas traduções. Assim, a escrita foi vista como lugar de livre ação, mas também de inscrição da tradição, da memoria, das quais não se escapa; as historias de um grupo têm uma memória que se perpetua em novas historias.
Em Samuel Rawet, entre o fascínio e o enfado, sua obra projeta a imagem do escritor experimentalista, avesso as questões do consumo, livre de amarras e imposições mercadológicas, disposto a uma escrita que gira em torno de si mesma de maneira alucinante.
Samuel Rawet cria o escritor Samuel Rawet como um artista abusado, corajoso, disposto a encarar a escrita como uma aventura muito séria. Seu manejar labiríntico da língua e sua erudição convivem com o seu sarcasmo, o primeiro dos vários atritos que marcam sua obra.
Com relação ao judaísmo, o autor também se coloca como aquele que se permite o direito de experimentar, independentemente do preço que venha a pagar — no seu caso, um anonimato persistente, que se desfaz atualmente com lentidão, ainda atrelado a grupos de estudos judaicos, e uma perplexidade por parte desse grupo que ele rejeita e ataca com ferocidade. Evidentemente, experimentar talvez seja um eufemismo meu. Contudo, gostaria de marcar que a rejeição progressiva de Rawet aos judeus, ao meu ver, se coloca também como instrumento da escrita, e passo fundamental para a quebra de limites que ele se propõe. O Rawet judeu criado por Rawet é aquele que vive em conflito com a família e a tradição, mas, principalmente, é aquele que rejeita convenções, sejam elas judaicas ou literárias.
Se podemos argumentar que isso se deve a um suposto auto ódio do imigrante que deseja ser um Brasileiro, podemos, da mesma forma, alinhar sua postura como a de um constante desafiador de regras - papel que, como imagem, cai bem, na linha do artista e pensador livre; concretizado texto, todavia, nem sempre o resultado é sedutor.
Em consonância com suas oscilações e contradições, o personagem judeu da ficção de Rawet é, por excelência, o andarilho, o errante, o judeu diaspórico, o imigrante desenraizado em busca de referentes possíveis. Um personagem sofrido, mas também capaz de ser mesquinho - ser judeu, ter sido judeu,  significa ser honrado em particular. Em contraste, Moacyr Scliar é um escritor nascido em berço judaico, o qual fundamenta e produz material para sua literatura. Ser judeu e ser escritor são dois papéis em harmonia, interdependentes. Seja como contador de historias ou contador de si próprio. Scliar projeta uma imagem que é tão pacífica e de bem consigo que julgamos tê-lo decifrado rapidamente. Não há conflitos drásticos a serem expressos, e a escrita revela­-se fluente, acessível, prazerosa. O autor é talvez o que de mais próximo existe do contador de historias Benjaminiano, atuando corno o fio condutor de uma memoria milenar que é respeitada, mas criticada quando necessária. Para o autor, ser considerado um escritor judeu não é uma limitação, pelo contrario: o judaísmo é um dos elementos principais de sua prosa, e a tradução desse para o contexto brasileiro constitui a principal mola propulsora de sua escrita. Sem se ater a rótulos, Scliar é a interseção mais hem acabada entre a cultura judaica e a brasileira. O autor representa o cânone da literatura feita por judeus no Brasil, se assim podemos afirmar,  sua tradução acaba por se tornar, curiosamente, a versão oficial literária do encontro de identidades. Suas obras tornam o elemento estranho, estrangeiro mais próximo e desacralizado, acessível e agradável, o que as configuram como a dialética possível das diferenças e a absorção e ressignificação do choque inicial. Ressignificar a choque é desenvolver a tolerância, conteúdo subjacente de vários de seus livros.
Sobre o conto escolhido, Escalpe, de Moacyr Scliar, não há nada de singular (especial) no conto até o trecho da perseguição do engenheiro a jovem pela floresta, é como se o trecho inicial quisesse tirar a atenção do leitor para verdadeiro foco, quanto ao narrador (onisciente?), não temos certeza dessa onisciência pois, se confunde a fala dos personagens a do narrador, essa narração é feita em 3ª pessoa.
Trecho emblemático: “Ele cortou os cabelos enquanto ainda estava deitado sobre ela”: Ele a teria possuído?
“A peruca fora feita, meses se passaram, uma criança nasceu, um menino”. Associação à peruca ao nascimento da criança dessa mulher que forneceu seu cabelo para confecção dessa peruca (uma narrativa).
Inicio de outra narrativa: “Uma tarde de domingo, o engenheiro descansava em casa, lendo uma revista”. Estava sozinho, a esposa e os filhos passavam a dia fora.
A ambiguidade se estabelece por que o narrador afirma o nascimento de um menino ao tratar sabre à peruca e inicia outra narrativa falando da família do engenheiro e ao tratar das crianças do casal, usa o termo “filhos” e não filhas (se houvesse nascido outra menina da esposa do engenheiro), confirmando que o leitor é quem irá determinar a sua leitura a partir daquilo que lhe é pertinente acreditar (obra aberta).

Em homenagem ao grande escritor Moacyr Scliar que nos deixou no último ano (2012).

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