- E então, não vai sugar o sangue gelado e estático do corpo dela?
Esse discurso reverberava dentro de si desde que o ouvira. Apesar de ser letrado graduado e bilíngue, era cego.
Digo isso porque só enxergava o seu próprio umbigo, como dizia os matutos.
Sempre fora aproveitador barato de todos ao seu derredor, a sua mãe era mais um dos exemplos disso. Vivera com ela até os trinta anos e quando arrumou uma rapariga e a trouxe para casa da mãe que morava de aluguel. Sua mãe suava para pagar a dívida mensal sem ajuda dele que era o 2º filho dos três que tivera e mais o frio, cruel e ambicioso.
Acontece que quando finalmente sai de casa, prospera adquirindo vários imóveis, se recusa a ajudar a mãe que sofre com reumatismo agudo e ainda trabalha para se sustentar aos 59 anos. Quando questionado sobre o descaso com a mãe, argumenta: que não quer ajudar indiretamente o sobrinho que é seu desafeto, filho de sua irmã mais velha que ele odeia com ódio mortal.
Agora deseja viajar com sua amante para o Ceará e implorava a mãe que ficasse com seu filho para não ter que levá-lo para viagem, a mãe bondosa ou estúpida, aceita reticente, mas não pode fazê-lo, pois teria que deixar de trabalhar para ficar com o neto.
E as contas como pagaria? Como pagaria o aluguel de 360 reais, a luz de 89,00 como compraria o gás e os víveres? Para o filho nada importava senão ter seu desejo atendido.
Ao encontrar a mãe caída no local de trabalho, em decúbito dorsal, pensa o que farei agora? Na sua face não há o sinal da dor ou da perda, apenas a face indiferente.
Resolve então ligar para o irmão que lhe atende com a resposta desagradável aos seus ouvidos, pois essa lhe adjetiva comparando-o ao vampiro.


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