A descrição de Caminha era de cunho
informacional, apesar de conter uma idealização exacerbada na descrição da
paisagem, do elemento indígena, das potencialidades de retorno que a “nova Terra”
poderia oferecer a longo prazo à Coroa Portuguesa.
Caminha na sua carta não se
preocupa com estéticas literárias, já que como ele próprio afirma, se tratava
de um documento informativo como tantos outros que foram escritos na tentativa
de inteirar o Governo Português sobre as novas conquistas.
Souza (1995) propõe uma leitura
imparcial, sem ressentimentos, através da qual busca entender como foi a primeira impressão causada pelo encontro entre o homem europeu civilizado,
cristão e mercador e os seres humanos radicalmente distintos de si.
A autora afirma ainda que tal
contato gerou uma violência cultural mais devastadora do que a violência da
exploração econômica durante a tentativa de escravizar os indígenas.
Desse modo, a autora identifica nas
ações dos Portugueses, a impossibilidade de conhecer e respeitar a diferença racial, de
tolerar o outro, de admitir, como não contrária a si, a existência dos indígenas, povos originários, habitantes da terra e
de sua particularidade cultural.
Contudo, na releitura feita da carta
de Caminha após a idade média, certas atitudes dos colonizadores são
encobertas, omitidas, ou reinterpretadas. Podemos citar como exemplo, a
concepção do índígena como indivíduo preguiçoso devido à sua resistência frente ao
processo colonizador/escravagista. Omissão do massacre indígena no confronto
com os portugueses através da “versão” da cordialidade dos nativos para com o
colonizador, mito que perdura até hoje, de que o brasileiro é cordial.
Guicci (1992) por sua vez, analisa
a carta de Caminha sob dois aspectos: num contexto imperial e em outro momento,
num contexto nacional. No primeiro momento, a carta é lida como documento histórico
de cunho informativo.
No contexto nacional, no entanto, é
elencada como documento de valor literário, marco para início do
desenvolvimento de uma literatura nacional a fim de emancipar o Brasil
literariamente de Portugal. Surge a partir daí o desenvolvimento de uma
identidade nacional, baseada nos mitos criados a partir das inúmeras releituras
da carta de Caminha, dos romances nacionalistas, ufanistas, nativistas.
Tal nacionalismo tinha base nos
valores europeus, no idealismo do homem branco, já que o índígena não era pensado
como um ser cultural.


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