Quem sou eu

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Salvador, Bahia, Brazil
A língua está em mim, me perpassa, faz parte da minha formação como ser social inserido num grupo. Compõe ainda a minha própria formação acadêmica já que resolvi após o primeiro curso superior (Administração), cursar Letras. Essa língua me representa em todos meus conflitos, pois suas características são iguais as minhas, um ser multifacetado, de exterior sóbrio e estático, mas no íntimo um turbilhão em movimento. Assim como um rio congelado que apresenta a sua superfície estática, mas o seu interior está sempre em movimento, num curso perene. Capacidade de adaptação e compreensão com singularidade e regionalidades tolerantes como próprios à língua. Escrever é para mim, como respirar, sinto essa necessidade e é através da escrita como afirmou Aristóteles que transitamos desde o terror até a piedade de nós mesmos e do outro. Esse ofício da escrita nos eleva, nos projeta, nos ressignifica quando tocamos o outro com as nossas palavras, seja no universo ficcional, biográfico ou autobiográfico. Escrever é uma necessidade, escrever é transpirar no papel as nossas leituras.

terça-feira, 27 de maio de 2014

FUGA





                    Um dia amante, um dia fugitivo, um dia feliz, outro bandido. Confuso sempre, permanentemente esquecido.
                     Felicidade devia ser proibido. Ela vicia, terrível como droga, é a droga da alegria. Quando se vai torna tudo monotonia.
                     Enquanto podes, não queira acordar a agonia, a angústia da abstinência da felicidade de um dia. Só. Depois de tudo, o que resta, é o despertar da maresia.
                      As lembranças estarão torturando a consciência com momentos possíveis, perdidos, proibidos, relegados, não vividos.

sábado, 24 de maio de 2014

ARQUEOLOGIA DE EMOÇÃO

               



                   O sentimento  avassalador sacudia meu peito, o olhar encantador, seduzia, hipnotizava fazia-me em êxtase.
                     Continuum de emoções, seus olhos atraía-me como um ímã. Refletia nossa felicidade futura. A recíproca era confusa, não negava, nem permitia. Aceitação misteriosa, incógnita do anseio.
                      Agradava-lhe ser conquistado, coração pilhado por palavras de admiração e desejo. Permanecera intransparente não esboçava reação.
                       Torturando-me com silêncio e aparente indecisão, permitira-me um momento a dois. Total realização.
                     

sábado, 26 de abril de 2014

Florecer






                     Periferia, quintal de casa, um tonel, quatro mãos brincam com a  água no interior dele.
Palavras, conversas, fatos, e gestos. Verdade encoberta, vida transparente. Naquele instante revelava o que todos já sabiam, temiam perceber, mas a dúvida os instigava a questioná-lo. Ainda que a resposta os apavorassem.
                      Assim, ao constatar a realidade homoafetiva em família, passou a viver preocupado. Enquanto o outro a essa altura já lutava a sua própria batalha: negação, raiva, negociação, depressão, e por fim, aceitação.
                       Confesso que a mais tenebrosa tenha sido a quarta fase, porém a maior recompensa é a trégua consigo, ao reconhecer-se no seu próprio corpo, diante da última máscara: a sua imagem no espelho.

domingo, 13 de abril de 2014

LEGATÁRIO.


                  Não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado da nossa tristeza. Não gerei, não criei, não alimentei, não abandonei, não assumi, não releguei, não preocupei, nem dor causei.
                   Universo de mágoas, armazém de solidão, infância triste, desprezo e abnegação. Luta constante, sempre para permanecer. Dificultaram a sua vida, um legado sofrível. Abandonado desde cedo, não gozava de possibilidades, agarrou a conquista, e com perseverança tendo vencido a luta da vida, no seu êxito, decidira que não promoveria o sofrimento a outrem. Não geraria ninguém, alguém, ou seja lá o que fosse.
                   Não teve filhos não transmitiu a ninguém o legado da sua tristeza.

sábado, 29 de março de 2014

Tripartite




                  Penso muito. Nada sei, um homem e duas mulheres. Não censuro. Já fui o quarto num relacionamento como esse. Mas o que leva a repartir a alma no interior de três. E o que dizer de compartilhar  a virilidade masculina esporadicamente?
                   Noites solitárias e com meia companhia. Sonhos adormecidos e frustrados. Como não se aventurar em busca de algo próprio? O comodismo a aprisionara algemando-a num relacionamento infeliz e vergonhoso. Compensava-se com o trabalho e o gasto compulsivo.
                   Sabia que não estava feliz, não era, nem seria, se prostrada permanecesse. A opinião alheia não lhe movia. Como uma lente translúcida, fingia não enxergar, como aprendera a fingir ser amada e estar contente. pobre refugo de gente, não desenvolvera  a vontade de viver.