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A língua está em mim, me perpassa, faz parte da minha formação como ser social inserido num grupo. Compõe ainda a minha própria formação acadêmica já que resolvi após o primeiro curso superior (Administração), cursar Letras. Essa língua me representa em todos meus conflitos, pois suas características são iguais as minhas, um ser multifacetado, de exterior sóbrio e estático, mas no íntimo um turbilhão em movimento. Assim como um rio congelado que apresenta a sua superfície estática, mas o seu interior está sempre em movimento, num curso perene. Capacidade de adaptação e compreensão com singularidade e regionalidades tolerantes como próprios à língua. Escrever é para mim, como respirar, sinto essa necessidade e é através da escrita como afirmou Aristóteles que transitamos desde o terror até a piedade de nós mesmos e do outro. Esse ofício da escrita nos eleva, nos projeta, nos ressignifica quando tocamos o outro com as nossas palavras, seja no universo ficcional, biográfico ou autobiográfico. Escrever é uma necessidade, escrever é transpirar no papel as nossas leituras.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

BIOGRAFIA E AUTOBIOGRAFIA: OS PRIMÓRDIOS



Hoisel (2006) irá afirmar que a concepção gerada pela crítica positivista do século XIX, passou a valorizar a biografia do ponto de vista que o texto era produto do autor, ou seja, o autor possuía autoridade sobre o seu próprio texto.
Hoisel afirma que o conceito de biografia nem sempre existiu, muitos autores foram criando, de forma que era uma parte da historiografia como um gênero literário. (como a narradora de Hatoum, se apóia na sua história e nos relatos de outros a respeito de si mesma para compor a sua “autobiografia” endereçada ao irmão).
É a partir do renascimento que surgem as condições históricas efetivas para que a biografia e a autobiografia possam se afirmar como forma discursiva, que se constituirá pela presença do sujeito a partir de um duplo e simultâneo foco. Como o sujeito reage ao mundo e como o mundo reage ao sujeito. Hoisel afirma que na idade média, faltava essa inter-relação, uma vez que, nesse período o sujeito ainda não é pensado a partir de suas dimensões psicológicas.
Desse modo, Hoisel elenca Rousseau como responsável pelos traços que constituem a autobiografia moderna, o que Costa Lima vai considerar como paradigma da autobiografia moderna, destacando cinco características principais desse gênero: definição da autobiografia como documento de uma vida, narrado por um narrador competente, prazer que o sujeito encontra em se narrar, revelação da sua própria intimidade e a paixão indagadora (podemos perceber todas essas características no texto de Hatoum, apesar desse texto se composto de um mosaico de citações (narrativas).
Diante disso, Hoisel afirma que apesar de determinados aspectos da biografia já existirem dentro de outros textos, somente Rousseau irá determinar definições mais claras, como a questão do pacto do sujeito com a linguagem. Esse pacto consiste em registrar com veracidade a sua própria vida, (o que pretende a narradora de Hatoum ao organizar um conjunto de vozes na sua narrativa), desse modo a biografia teria características como: autenticidade, veracidade, exemplaridade, legitimidade.
Mais tarde, Rousseau sofre um choque ao constatar que na modernidade, não é possível dizer tudo através da obra autobiografia, devido à dificuldade que está relacionada à linguagem.
Hoisel ressalta ainda que os estudos psicanalíticos abalam a concepção de literatura (biografia / autobiografia) no século XIX, por questionar o poder e o querer autorial, criticando assim, o nascimento do texto de forma que o autor que o produz trás consigo todas as interpretações corretas.
Hoisel conclui sobre a questão biográfica, que nós já temos a realidade tal qual ela é; uma produção da linguagem. É interpretar essa realidade só é possível através de um olhar que codifica ou decodifica através da linguagem, levando em consideração o seu contexto histórico, cultural (conhecimento e experiências passadas), segundo a sua percepção individual.
Logo a biografia não é apenas a reprodução do que foi vivido factualmente.
A obra é uma vivencia imaginária que percorre várias territorialidades onde o autor esteve físico e emocionalmente envolvido, e que resultou em experiências múltiplas. 

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