Artigo
Paulo
Souza de Amaral
Artigo apresentado a
Profª Mônica Menezes
Para Avaliação parcial
do semestre 2011.1 da disciplina
Letc - 37 – Literatura Infanto – Juvenil
(UFBA).
Salvador, Junho
2011
Monstros e Monstruosidades a Catarse do Indivíduo
O
clássico mais célebre que traz a alegoria do monstro e monstruosidade inerente
ao ser humano, talvez seja The Strange
Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, O médico e o monstro Robert Louis Stevenson.
Nessa
obra percebemos o indivíduo e seus conflitos, preso num só corpo o convívio dual
de criaturas distintas, uma humana e a outra bestial. É interessante perceber a
construção desse personagem pelo autor: Robert Louis Stevenson em The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, ilustre médico, percebe-se dividido entre duas personalidades, ambas,
para ele, completamente verdadeiras. Uma é a do emérito doutor, filantropo
respeitado e exemplo de conduta. A outra, reprimida durante toda a sua vida, é
a do hedonista, que busca o prazer carnal, que comete crueldades e vilanias,
sem responsabilidades. Busca, então, na ciência, a maneira de resolver esse
impasse. A poção que permite a transmutação entre as personalidades é, ao mesmo
tempo, amostra das incríveis possibilidades abertas pela ciência em acelerada
evolução e exemplo da angústia de não saber até onde ela poderia ir, já que a
invenção subjuga o próprio cientista, que não pode mais controlá-la. Ainda que
de forma não premeditada, Stevenson transporta para a literatura o debate
político e social vigente, (Karl Marx viveu em Londres de 1850 até sua morte,
em 1883). Ao mesmo tempo que traz o progresso e a riqueza, a ciência traz a
pobreza e a destruição, como se podia observar na própria Londres da época.
A invenção do Dr. Jekill explicita ainda um tema importante relacionado
à moral e à sociedade: o bem e o mal convivem dentro de cada ser humano. Mr.
Hyde não ganha vida pela ingestão da beberagem, e sim é libertado do interior
de Jekill, onde já vivia, embora reprimido.
Não é difícil encontrar evidências de uma tese sobre o consciente e o
subconsciente nas entrelinhas dessa obra de ficção do final do século XIX. Para
isso, basta ler o último capítulo do livro em que o médico, num momento de
lucidez, narra em uma carta todo seu trabalho e pesquisa dos últimos anos. A
escolha feita pelo autor do personagem como um médico, profissão
tida como nobre desde a Grécia Antiga fundada com o juramento de Hiprócrates
não é inocente.
O médico um indivíduo ético, sério comprometido com sua profissão que
seria a de salvar vidas e curar o mundo de suas mazelas através da ciência
vê-se num dilema.
No clássico de Stevenson,
esse ser nobre é também um ser dual, guarda em si, uma criatura horrenda, mas
qual seria esse propósito do autor? O de confinar num único corpo dois seres de
natureza tão diferentes? O Médico e o Monstro?
Segundo Jeha (2008) Monstros corporificam tudo que é perigoso e
horrível na experiência humana. Eles nos ajudam entender e organizar o caos da
natureza e o nosso próprio. Nas mais antigas e diversas mitologias, o monstro
aparece como símbolo da relação de estranheza entre nós e o mundo que nos
cerca.
A partir dessa idéia, entendemos que no clássico o Médico e o Monstro o
autor propõe a catarse do indivíduo através da manifestação da personalidade /alter ego do
Monstro, para demonstrar que o ser humano não seria tão bom, tão perfeito como
poderia se esperar.
O
conflito psicológico apresentado na obra também demonstra a eterna luta do
indivíduo contra sua natureza terrena/bestial e egoísta em contrapartida com os
valores estabelecidos pela sociedade e dos dogmas da Igreja que si mesclam a
esses valores sociais.
Sobre
isso entendermos que a auteridade do indivíduo está sempre condicionada aos
valores do Estado que na Idade Média era regido pela Igreja Católica, e hoje é
tido como Laico, porém se apresenta na verdade como Científico, pois o governo
é orientado pelas descobertas cientificas e avanço da ciência. Todo governo se
apoia na ciência para governar.
E é
nessa sociedade científica que nos é apresentado à nova concepção para Monstros
e monstruosidades. Segundo Jeha o monstro como uma metáfora do mal: deixando um
pouco de lado a criatura em si, sua aparência e deformidades para focar nas
suas monstruosidades, aqueles atos monstruosos que as pessoas cometem. Podemos
citar os grandes ditadores como: Stálin, Hitler, e o terrorista Bin Laden que tinham
algo de bom, mas cometeram atrocidades, atos de crueldade que foram além do que
se esperava de um ser humano.
O autor
destaca que o cerne da questão é a capacidade do homem de exceder o limite da
maldade e a que a literatura é um bom campo para analisar isso.
Se na
obra de Stevenson, o médico e o monstro, inaugura a
catarse do indivíduo na literatura da época, na atualidade esse monstro e essa
monstruosidade é repensada, não tem lugar fixo nem definição estabelecida, o
monstro para Jeha é um vazio que se pode preencher com vários medos, acusações,
castigos. Ele pode ser uma criatura, uma pessoa ou mesmo um lugar.
Desse modo entendemos
que tais construções do monstro e monstruosidades fazem parte do indivíduo, e
podem estar relacionadas a aspectos diversos como: forma de obter coesão do
grupo, toda comunidade precisa ter união interna para agir contra um inimigo
externo. Uma das maneiras mais fáceis de obter isso é usar a imagem do monstro,
transformando o inimigo em monstro, é possível unir todos contra ele.
O monstro pode ser resultado ainda, de uma
falha no conhecimento humano-tanto no sentido científico, quanto moral e
social, ou seja, aquilo que o homem não conhece ainda tende a ver como
monstruoso. Da mesma forma, a partir do memento em que se torna natural, passa
a fazer parte da realidade das pessoas e deixa de ser monstro.
Assim o monstro é
sempre caracterizado pela ideia de excesso, irreal e de anormal.
JEHA. Julio, MONSTROS E MONSTRUOSIDADES NA LITERATURA,
editora: UFMG,
edição: 1ª, ano: 2007.
STEVENSON. Robert Louis,
THE STRANGE CASE OF DR JEKYLL AND MR
HYDE, coleção: clássicos
infantis, editora: cia das
letrinhas, edição: 1ª, ano 1999.
http://revista.fapemig.br/materia.php?id=478


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