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Salvador, Bahia, Brazil
A língua está em mim, me perpassa, faz parte da minha formação como ser social inserido num grupo. Compõe ainda a minha própria formação acadêmica já que resolvi após o primeiro curso superior (Administração), cursar Letras. Essa língua me representa em todos meus conflitos, pois suas características são iguais as minhas, um ser multifacetado, de exterior sóbrio e estático, mas no íntimo um turbilhão em movimento. Assim como um rio congelado que apresenta a sua superfície estática, mas o seu interior está sempre em movimento, num curso perene. Capacidade de adaptação e compreensão com singularidade e regionalidades tolerantes como próprios à língua. Escrever é para mim, como respirar, sinto essa necessidade e é através da escrita como afirmou Aristóteles que transitamos desde o terror até a piedade de nós mesmos e do outro. Esse ofício da escrita nos eleva, nos projeta, nos ressignifica quando tocamos o outro com as nossas palavras, seja no universo ficcional, biográfico ou autobiográfico. Escrever é uma necessidade, escrever é transpirar no papel as nossas leituras.

domingo, 19 de agosto de 2012

MODERNISMO sem MODERNIZAÇÃO


Santiago (1989) trata acerca de como o poder de repressão do governo tentou calar a voz da democracia de um modo geral, e como intelectuais utilizaram suas obras para criticar violência desse poder, daí que em seu texto, o autor menciona a concepção de democratização no Brasil e não democratização do Brasil, por considerar que apesar desse “movimento democrático” ter chegado ao Brasil, ele não é legitimado por completo, uma vez que, ainda existe minorias que não possuem voz no discurso.
Sobre essas minorias que disputam lugar (espaço) na sociedade, direito de falar e de serem ouvidas, podemos citar o discurso de Foucault (2004) que trata sobre a necessidade de dar voz a classe que se está representando. Nesse sentido, o governo ao representar a nação, não pode apenas valorizar certas “classes” em detrimento de outras, no caso, as minorias – as mulheres, os negros e os homossexuais.
Na tentativa de representar essas classes os intelectuais falham, pois não se reconhece a voz do representado no discurso social, antes esses intelectuais atrapalham, por assim dizer, a liberdade de expressão dessas classes que permanecem à margem. É como se tais intelectuais funcionassem como paliativo para que ao reportarem a voz dos marginalizados, esses permanecessem nos seus respectivos lugares sem “desorganizar” a geografia social (topografia), acreditando que estão sendo bem representados e possuem voz no discurso, perpetuando o ciclo do poder nas mãos da antiga aristocracia.
Sobre essa topografia social, Connor (1997) trata de definir os espações sociais demarcando o poder, de modo que, no centro prevalece o intelectual, o rico, o branco, a concepção patriarcal (modelo) e as ideologias machistas, enquanto que à margem, na periferia estariam  os vários grupos marginalizados.
Connor afirma que essa relação é instável, constantemente trava-se uma batalha no campo social, ideológico; através de produções artísticas, seja a música, a literatura, a arte, ou a política para disputar esse poder (espaço) ao centro.
Diante disso, percebemos a fragmentação do poder, esse poder não se encontra enraizado numa única instância, mas é operado nos vários discursos que perpassam esse modelo social que se afirma democrático, no entanto percebemos falhas nessa “democracia”.
Daí que Cancline irá afirmar que esse modelo (movimento democrático) é contraditório no Brasil, por conta que apesar de revolucionar o campo artístico, não operou as grandes transformações (como uma redistribuição igualitária dos espaços sociais – o poder, a voz, a visibilidade aos invisíveis socialmente representados) que ocorreram na Europa.
Vale assinalar que toda essa problemática irá promover uma transformação na concepção da literatura contemporânea que será pautada nas temáticas das minorias (os que habitam a periferia na topografia social) e que será denominada literatura marginal por seus representantes não possuírem visibilidade, apesar dessa literatura possuir força e coerência.
É importante mencionar a crise da representação que é uma marca da literatura brasileira contemporânea, uma vez que, se dá conta que o autor-narrador-personagem se confundem e de distanciam, o intelectual já não possui uma “função”, pois o que esse intelectual objetivava, se torna indigno, já que para representar o outro era necessário conhecê-lo e partilhar das suas “angustias”, mas esse intelectual prefere marcar o seu lugar de fala, sua posição no discurso, deixando bem claro, bem estabelecido os limites dessa topografia social.
Desse modo, Canclini (2003) irá tratar sobre contradições do modernismo, pois segundo esse autor, esse movimento foi copiado (exportado da Europa para o Brasil), no entanto perdeu a “força” transformadora ao cruzar o atlântico, pois não operou as mesmas transformações sociais e políticas aqui na tribo tupiniquim.
Isso se deve, em grande parte a própria posição do governo e das classes que detém o poder e que através de estratégias de legitimação abafaram esse movimento, impedindo a circulação da cultura às classes mais baixas (poder simbólico), freando o desenvolvimento e avanço das classes marginalizadas para as regiões onde se encontra localizado o poder, legitimando, assim, o grande abismo social entre o centro e a periferia.
Diante disso, Canclini considera que esse movimento modernista havia falhado em seu maior propósito aqui no Brasil, uma vez que, não operou a modernização, igualitando o poder perante as classes sociais.


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