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A língua está em mim, me perpassa, faz parte da minha formação como ser social inserido num grupo. Compõe ainda a minha própria formação acadêmica já que resolvi após o primeiro curso superior (Administração), cursar Letras. Essa língua me representa em todos meus conflitos, pois suas características são iguais as minhas, um ser multifacetado, de exterior sóbrio e estático, mas no íntimo um turbilhão em movimento. Assim como um rio congelado que apresenta a sua superfície estática, mas o seu interior está sempre em movimento, num curso perene. Capacidade de adaptação e compreensão com singularidade e regionalidades tolerantes como próprios à língua. Escrever é para mim, como respirar, sinto essa necessidade e é através da escrita como afirmou Aristóteles que transitamos desde o terror até a piedade de nós mesmos e do outro. Esse ofício da escrita nos eleva, nos projeta, nos ressignifica quando tocamos o outro com as nossas palavras, seja no universo ficcional, biográfico ou autobiográfico. Escrever é uma necessidade, escrever é transpirar no papel as nossas leituras.

sábado, 5 de maio de 2018

SERMO PATRIUS









No  poema Língua Portuguesa,  Olavo Bilac, poeta parnasiano, faz uma abordagem sobre a história da língua portuguesa, tema já tratado por Luís Vaz de Camões ( autor nacional de Portugal, considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental.) , Este poema inspirou outras produções literárias, como o poema “Língua”, de Gilberto Mendonça Teles e “Língua Portuguesa”, do cantor Caetano Veloso.

Esta história é contada em catorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos – um soneto – seguindo as normas clássicas da pontuação e da rima.

Uma análise semântica do texto literário, possibilita-nos perceber que o poeta, com a metáfora “Última flor do Lácio, inculta e bela”, refere-se ao fato de que a língua portuguesa ter sido a última língua neolatina formada a partir do latim vulgar – falado pelos soldados da região italiana do Lácio.

No verso dois, há um paradoxo: “És a um tempo, esplendor e sepultura”. “Esplendor”, porque uma nova língua estava ascendendo, dando continuidade ao latim. “Sepultura” porque, a partir do momento em que a língua portuguesa vai sendo usada e se expandindo, o latim vai caindo em desuso, “morrendo”.

Nos versos três e quatro, “Ouro nativo, que na ganga impura / A bruta mina entre os cascalhos vela”, o poeta exalta a língua que ainda não foi lapidada pela fala, em comparação às outras também formadas a partir do latim.

Olavo Bilac enfatiza a beleza da língua em suas diversas expressões: oratórias, canções de ninar, emoções, orações e louvores: “Amo-te assim, desconhecida e obscura,/ Tuba de alto clangor, lira singela”. Ao fazer uso da expressão “O teu aroma/ de virgens cegas e oceano largo”, o autor aponta a relação subjetiva entre o idioma novo, recém-criado, e o “cheiro agradável das virgens selvas”, caracterizando as florestas brasileiras ainda não exploradas pelo homem europeu. Ele manifesta a maneira pela qual a língua foi trazida ao Brasil – através do oceano, numa longa viagem através das caravelas portuguesas – quando encerra o segundo verso do terceto.

Expressando ainda o seu amor pelo idioma, agora através de um vocativo, “Amo-te, ó rude e doloroso idioma”, O poeta alude ao fato de que o idioma ainda precisava ser moldado e, impor essa língua a outros povos não era um tarefa fácil, pois implicou em destruir a cultura de outros povos.

No último terceto, quando o autor diz: “Em que da voz materna ouvi: “meu filho!/ E em que Camões chorou, no exílio amargo/ O gênio sem ventura e o amor sem brilho”, ele utiliza uma expressão fora da norma (“meu filho”) e refere-se a Camões, quem consolidou a língua portuguesa no seu célebre livro “Os Lusíadas”, uma epopéia que conta os feitos grandiosos dos portugueses durante as “grandes navegações”, confeccionada quando esteve exilado, aos 17 anos, nas colônias portuguesas da África e da Ásia. Durante esse exílio, nasceu “Os Lusíadas”, uma das oitavas epopéias mundiais.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

PRODIGIUM









O clássico mais célebre que traz a alegoria do monstro e monstruosidade inerente ao ser humano, talvez seja The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, O médico e o monstro Robert Louis Stevenson.
Nessa obra percebemos o indivíduo e seus conflitos, preso num só corpo o convívio dual de criaturas distintas, uma humana e a outra bestial. É interessante perceber a construção desse personagem pelo autor: Robert Louis Stevenson em The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, ilustre médico, percebe-se dividido entre duas personalidades, ambas, para ele, completamente verdadeiras. Uma é a do emérito doutor, filantropo respeitado e exemplo de conduta. A outra, reprimida durante toda a sua vida, é a do hedonista, que busca o prazer carnal, que comete crueldades e vilanias, sem responsabilidades. Busca, então, na ciência, a maneira de resolver esse impasse. A poção que permite a transmutação entre as personalidades é, ao mesmo tempo, amostra das incríveis possibilidades abertas pela ciência em acelerada evolução e exemplo da angústia de não saber até onde ela poderia ir, já que a invenção subjuga o próprio cientista, que não pode mais controlá-la. Ainda que de forma não premeditada, Stevenson transporta para a literatura o debate político e social vigente, (Karl Marx viveu em Londres de 1850 até sua morte, em 1883). Ao mesmo tempo que traz o progresso e a riqueza, a ciência traz a pobreza e a destruição, como se podia observar na própria Londres da época.  
A invenção do Dr. Jekill explicita ainda um tema importante relacionado à moral e à sociedade: o bem e o mal convivem dentro de cada ser humano. Mr. Hyde não ganha vida pela ingestão da beberagem, e sim é libertado do interior de Jekill, onde já vivia, embora reprimido.
Não é difícil encontrar evidências de uma tese sobre o consciente e o subconsciente nas entrelinhas dessa obra de ficção do final do século XIX. Para isso, basta ler o último capítulo do livro em que o médico, num momento de lucidez, narra em uma carta todo seu trabalho e pesquisa dos últimos anos. A escolha feita pelo autor do personagem como um médico, profissão tida como nobre desde a Grécia Antiga fundada com o juramento de Hiprócrates não é inocente.
O médico um indivíduo ético, sério comprometido com sua profissão que seria a de salvar vidas e curar o mundo de suas mazelas através da ciência vê-se num dilema.
No clássico de Stevenson, esse ser nobre é também um ser dual, guarda em si, uma criatura horrenda, mas qual seria esse propósito do autor? O de confinar num único corpo dois seres de natureza tão diferentes? O Médico e o Monstro?
Segundo Jeha (2008) Monstros corporificam tudo que é perigoso e horrível na experiência humana. Eles nos ajudam entender e organizar o caos da natureza e o nosso próprio. Nas mais antigas e diversas mitologias, o monstro aparece como símbolo da relação de estranheza entre nós e o mundo que nos cerca.
A partir dessa idéia, entendemos que no clássico o Médico e o Monstro o autor propõe a catarse do indivíduo através da manifestação da personalidade /alter ego do Monstro, para demonstrar que o ser humano não seria tão bom, tão perfeito como poderia se esperar.
O conflito psicológico apresentado na obra também demonstra a eterna luta do indivíduo contra sua natureza terrena/bestial e egoísta em contrapartida com os valores estabelecidos pela sociedade e dos dogmas da Igreja que si mesclam a esses valores sociais.
Sobre isso entendermos que a alteridade do indivíduo está sempre condicionada aos valores do Estado que na Idade Média era regido pela Igreja Católica, e hoje é tido como Laico, porém se apresenta na verdade como Científico, pois o governo é orientado pelas descobertas cientificas e avanço da ciência. Todo governo se apoia na ciência para governar.
E é nessa sociedade científica que nos é apresentado à nova concepção para Monstros e monstruosidades. Segundo Jeha o monstro como uma metáfora do mal: deixando um pouco de lado a criatura em si, sua aparência e deformidades para focar nas suas monstruosidades, aqueles atos monstruosos que as pessoas cometem. Podemos citar os grandes ditadores como: Stálin, Hitler, e o terrorista Bin Laden que tinham algo de bom, mas cometeram atrocidades, atos de crueldade que foram além do que se esperava de um ser humano.
O autor destaca que o cerne da questão é a capacidade do homem de exceder o limite da maldade e a que a literatura é um bom campo para analisar isso.
Se na obra de Stevenson, o médico e o monstro, inaugura a catarse do indivíduo na literatura da época, na atualidade esse monstro e essa monstruosidade é repensada, não tem lugar fixo nem definição estabelecida, o monstro para Jeha é um vazio que se pode preencher com vários medos, acusações, castigos. Ele pode ser uma criatura, uma pessoa ou mesmo um lugar.
Desse modo, entendemos que tais construções do monstro e monstruosidades fazem parte do indivíduo, e podem estar relacionadas a aspectos diversos como: forma de obter coesão do grupo, toda comunidade precisa ter união interna para agir contra um inimigo externo. Uma das maneiras mais fáceis de obter isso é usar a imagem do monstro, transformando o inimigo em monstro, é possível unir todos contra ele.
 O monstro pode ser resultado ainda, de uma falha no conhecimento humano-tanto no sentido científico, quanto moral e social, ou seja, aquilo que o homem não conhece ainda, tende a ver como monstruoso. Da mesma forma, a partir do momento em que se torna natural, passa a fazer parte da realidade das pessoas e deixa de ser monstro.
Assim o monstro é sempre caracterizado pela ideia de excesso, irreal e de anormal.

sábado, 15 de julho de 2017

CONCEPÇÃO DE LÍNGUA/LINGUAGEM, FORMAÇÃO DE PROFESSORES E ENSINO DE PORTUGUÊS LÍNGUA ESTRANGEIRA (PLE)










            Segundo Oliveira (2007), a concepção de língua/linguagem adotada pelo profissional docente irá influenciar na sua atividade profissional. Dito de outra maneira, se o professor entender a língua/linguagem como um conjunto de sistemas formais, ele irá desenvolver a sua docência a partir dessa concepção de língua/linguagem, o que irá privilegiar certos aspectos linguísticos em detrimento de outros.
            Sobre o ensino do Português como Língua Estrangeira (PLE), a dinâmica se dá da mesma forma, no entanto, o mais coerente é que o professor seja capaz de utilizar as várias concepções de língua/linguagem conforme as necessidades dos alunos. Em se tratando de PLE, fica evidente que a concepção sócio-interacionista e uma abordagem que enfatize o método comunicativo trará maiores resultados no aprendizado desses alunos. Não podemos dissociar a língua da cultura durante a atividade docente, uma vez que a cultura perpassa a língua. Aprender uma língua estrangeira, ou uma segunda língua(L2) implica em  mergulhar na cultura dessa língua em questão.
             Segundo Mendes (2010), o caminho que nos favorece nessa atividade de ensino é a etnografia, que é a forma do professor investigar a comunicação humana em tempo real, através de sua atividade docente. Conforme Santos(2009)Isso se dá da seguinte forma: o professor ao mesmo tempo em que ministra a aula, ele avalia a recepção dos alunos diante das atividades propostas, dos materiais utilizados, do modelo de avaliação/exercício, e ao final esse docente irá propor melhorias ao seu próprio método de ensino ou abordagem, no intuito de otimizar a relação ensino-aprendizagem.
               Logo, a importância de não dissociar a língua da cultura no processo ensino-aprendizagem reside no fato de que a língua não é apenas a estrutura formal e sistematizada, mas compreende também a interação entre os indivíduos e essa interação se dá num contexto sócio-cultural que abarca implícitos que não podem ser ignorados na atividade entre os falantes.

sábado, 10 de dezembro de 2016

VIVÊNCIAS



            Se for só isso, terei sido feliz. 
O amor passou e acenou-me com a mão. Corri em carona e deixei-me conduzir.
            A alegria suspirou e senti o êxtase das sublimes emoções. Tentei parar o tempo, 
eternizar o momento. Segui acreditando no percurso da realização.
             Atravessei e continuo seguindo, se foi só isso, terei sido feliz;
Na felicidade do momento; a contento; do aprendiz; aprendendo a ser feliz!


domingo, 31 de julho de 2016

ALIENAÇÃO







                 Segundo Fanon (1951) não basta apenas mudarmos a nossa visão de mundo, para que deixemos de ser alienados, é necessário mudar o mundo. Para o autor a alienação colonial consiste na impossibilidade do indivíduo se constituir enquanto sujeito da sua própria história. Então, se estivermos impossibilitados de reagir à colonização, seremos sempre alienados, ainda que estejamos conscientes de tudo que acontece em torno de nós;(saibamos quem são nossos opositores/adversários).
                  Fanon pensou as consequências dessa  alienação de duas formas: subjetiva e objetiva; o indivíduo negro para ser aceito como humano deveria agir/pensar como os chamados "brancos'. Tal comportamento, segundo o autor, traria consequências objetivas (concretas) e subjetivas (psicológicas). Pois, embora o ser humano seja constituído de razão e emoção, a sociedade ocidental tende a separar a razão da emoção como duas coisas distintas, mais ainda, ao definir o indivíduo como ser humano, a sociedade ocidental afirma que o ser humano é a razão, pondo assim a emoção no campo da natureza, afirmando ainda  que há uma necessidade de controle dessa emoção por considerá-la uma  ameaça a razão.
                   O autor afirma ainda, que no Século XVIII, os Iluministas (europeus) definiram os humanos com base em si mesmo (tendo a si próprio como modelo), trazendo assim uma definição truncada (incompleta) que não contemplava o indivíduo negro, já que essa classificação iluminista englobava apenas o sujeito branco (humanidade)  representado pela razão, (que denotava valores como civilização, religião, cultura, tecnologia e o estado) e o corpo como algo a a ser dominado (domado/domesticado). Fanon chama atenção para as conclusões iluministas: se o branco é tido como humano, e o indivíduo que não é branco? Esse não é considerado tão humano assim.
Logo, para se humanizar o individuo negro teria que se embranquecer, inclusive através  do adestramento do corpo (comportamento, roupas, linguagem e até através das relações afetivas).
               Em sua obra  Pele Negra Máscara Branca, Fanon cita um exemplo intersexual para demonstrar o sofrimento psicológico como consequência subjetiva: "Da parte mais negra de minha alma, através da zona de meias-tintas, me vem este desejo repentino de ser branco. Não quero ser reconhecido como negro, e sim como branco. Ora — e nisto há um reconhecimento que Hegel não descreveu — quem pode proporcioná-lo, senão a branca? Amando-me ela me prova que sou digno de um amor branco. Sou amado como um branco. Sou um branco. Seu amor abre-me o ilustre corredor que conduz à plenitude... Esposo a cultura branca, a beleza branca, a brancura branca. Nestes seios brancos que minhas mãos onipresentes acariciam, é da civilização branca, da dignidade branca que me aproprio." (p.69). Nesse capítulo, o autor demonstra uma das formas do sujeito negro se apropriar da cultura branca através dessa relação amorosa.
               Percebemos assim, o sofrimento psíquico do indivíduo ao perceber-se negro num mundo regido por ideais branco e que não aceita o diferente dos seus padrões. O autor afirma ainda que tem algo que iguala homens e mulheres negros em relação a esse tema, que é: a busca por esse "outro" é mediada pelo racismo num lugar em que o branco é tratado como sinônimo de humanidade. Logo, esse negro, irá tentar ser branco (se apropriar desse embranquecimento) em vários aspectos, a exemplo da literatura, nos hábitos, costumes, porém essa tentativa torna-se limitada porque apesar do desejo de ser branco (agir /viver como branco), ele percebe que continua sendo negro, mesmo que ele acredite que é branco. (sempre será visto como negro).
               Fanon afirma  que algumas pessoas irão perceber que por mais que elas tentem ser negras, (viver e agir de acordo com sua identidade )elas não vão conseguir, outras não. Por outro lado, há ainda aqueles que amaram muito o mundo branco e agora percebem que não são aceitos. Esse amor dedicado ao mundo branco, torna-se-á ódio por tudo que representa esse mundo branco. O autor afirma ainda que esse ódio é bom pois, ajuda a desestabilizar a hegemonia branca. No entanto, ressalta que nenhuma luta política se faz pelo ódio, já que esse sentimento impede a percepção do sujeito sobre  as afinidades entre os indivíduos. Ao enxergarmos o outro como depositário de todas as agressividades (o corpo/ a agressividade/ a barbárie), deixamos de perceber a nós mesmos  como sujeitos do processo. Tentando explicar assim, todos os conflitos como culpa do outro, não identificando  a nossa responsabilidade como ator social (que reproduz os mesmos comportamentos errôneos ), então faz-se necessário superar esse ódio.
                O autor alerta ainda sobre o risco do sujeito negro aceitar essa dicotomia (branco-razão/ negro-emoção)  que o indivíduo branco estabeleceu afirmando que a razão é superior a emoção. Fanon considera perigoso para o indivíduo negro apenas inverter essa noção/conceito, pois o negro continuaria sendo emoção e o branco razão, no entanto, a emoção seria valorizada em detrimento da razão. O autor chama atenção para os debates sobre identidade, afirmando que tais debates só são produtivos se valorizarmos nossa identidade sem desvalorizar a identidade do outro.
                 Portanto concluímos que, para Fanon a luta não é identitária, nem pela preservação da cultura,  mas pela libertação do indivíduo e pela possibilidade do ser humano ressignificar  essa cultura.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

ENTRE DOIS.





        Retornou, retrucou, redarguiu! Eram dois, eram um, eram depois. Depois de tudo nada havia, apenas  mentiras e agonia.
        Razões razoáveis aplicadas na razão de dois. Um vitimizava-se,  outro exorava para si a verdade. Achava-se preterido, rejeitado, fora defenestrado para fora da vida a dois.
        Inconformado não soubera perdoar, entender, relevar nem compreender. Emudeceu! E diante do silêncio encarava respostas. Retornar não poderia, nem mesmo sem ter concluído o objetivo, já seria muito tarde. 
        Revestiu-se da solidão  e retomando a caminhada, suspirou: - "agora somos um em busca do dois." 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

BOURDIEU E O SISTEMA ESCOLAR










        Segundo Bourdieu (1970) o sistema escolar não vai igualar as oportunidades ou dar cultura a todos mas pode, no entanto, não reforçar a desigualdade.
        Dentre suas inúmeras contribuições está, de certo, essa de mostrar que, se a escola agrava, por assim dizer, as desigualdades que tem origem nas posições ocupadas pelos indivíduos no espaço social, ela o faz, justamente por privilegiar a cultura dominante, ao valorizar relações com os conhecimentos associados aos padrões de elite, ao construir e favorecer modos de avaliação cujos critérios também repousou sobre distinções sociais.
       Atualmente o Ministério da Educação está desenvolvendo a Base Nacional Comum Curricular com o intuito de igualar  o currículo no sistema pedagógico. Sistema é o conjunto  de vários elementos intencionalmente reunidos de modo a formar uma estrutura coerente  e operante. O sistema pedagógico (ou educacional) é o conjunto das instituições por meio das quais uma sociedade procura conscientemente e, principalmente, pela palavra, formar as ideias, os sentimentos, etc. (construção do indivíduo)
       Desde cedo, na obra de Bourdieu, a escola é tida como instância conservadora e a pedagogia como conjunto de procedimentos que podem agravar as diferenças sociais vividas na cultura escolar como diferenças de capacidades ou de aptidões, de "inteligência" ou de  "dons". Ele pensava que apenas uma "pedagogia racional" poderia neutralizar essa ação de intensificação das desigualdades no interior  do sistema escolar e, assim mesmo, apenas aliadas a uma vontade política de dar a todos oportunidades iguais perante o ensino. Essa pedagogia deveria ser fundada sobre uma sociologia das desigualdades culturais.
      A base nacional comum curricular torna-se um desafio uma vez que, os sistemas de ensino implica uma pluralidade de organizações públicas e particulares, um conjunto mais ou menos complexo de unidades escolares de natureza  e níveis diferentes superpostos, hierarquizados e ligados entre si por uma relação de coordenação e subordinação. Na sua estrutura e desenvolvimento há diferentes influências histórico-sociais. Na sua organização refletem os interesses das classes dominantes e as diversas demanda dessas classes.
      De acordo com Bourdieu exatamente porque conhecemos as leis da reprodução- as formas pelas quais ela se efetiva- é que passamos a ter alguma possibilidade de minimizar os efeitos da ação reprodutora da instituição escolar. Bourdieu analisa a ação pedagógica como ação de violência simbólica, isto é, de inculcação de significações e  de legitimação dessas mesmas distinções. Eles desentranham  das situações de ensino das formas pelas quais tal violência é exercida pelos agentes pedagógicos devidamente autorizados na instituição.
      Assim é que, para dar conta das especificidades do sistema educacional, são examinadas as diversas relações que se concretizam na instituição escolar entre o capital cultural dos indivíduos e os modos de viver a comunicação pedagógica, os discursos dos professores e as formas de compreensão dos alunos, o papel dos exames e os modos de selecionar os que podem ascender socialmente pela educação.
       Portanto é perceptível um estreito diálogo entre a base nacional curricular proposta pelo Ministério da Educação e as ideias de Bourdieu que ao gerar cuidadosa análise das formas pelas quais a escola concretiza no cotidiano, sua função reprodutora das relações de dominação vigentes na sociedade, Ele sustentou uma alternativa bastante peculiar de "cúmplice da utopia" propondo o trabalho de desvelar os modos ocultos da produção da violência da dominação ou da injustiça. Dentre as conceituações para a explicação de Bourdieu acerca da educação está a de capital cultural. Assim como o capital econômico e o capital social que é constituído por redes de relações e prestígio, o capital cultural também contribui para situar os agentes em posições definidas no espaço social.
      O capital cultural identifica-se sob a forma de conhecimentos e habilidades adquiridos quer na família, quer na escola. Desse modo , o capital cultural aparece como um conjunto de prioridades adquiridas pelos indivíduos que se consubstanciam sob três formas a começar por um estado incorporado- como disposições duráveis do organismo, um trabalho do indivíduo sobre si mesmo, como um "cultivar-se" que traduz o tempo investido na aquisição de modos potenciais de ação. Já o estado objetivado do capital cultural refere-se a um certo número de prioridades definidas apenas em relação ao capital cultural incorporado e que podem associar-se aos suportes materiais (escritos e quadros, por exemplo). Entretanto mesmo sendo transmissíveis como o capital econômico, na verdade dependem do capital cultural incorporado para que possam ser desfrutados.
      Além desses estados, Bourdieu indica igualmente a existência de outra dimensão, a do capital cultural institucionalizado e exemplifica através dos diplomas que, como "certidões de competência cultural ", conferem aos seus portadores um valor constante, convencionado e garantido com relação à cultura. Esse certificado é como se fosse um reconhecimento institucional do capital cultural do indivíduo e permite tanto que se compare aos "diplomados" quanto que se estabeleçam valores ou taxas de conversão entre o capital cultural e o capital econômico.
     Quer isso dizer que os diplomas estabelecem valores para seus detentores e valores em dinheiro, que podem ser trocados no mercado de trabalho.





















sábado, 5 de dezembro de 2015

A GRAMÁTICA E A ESCOLA.



 






     Segundo Azeredo (2000), em seu sentido mais técnico, no âmbito da ciência da linguagem, gramática é o termo que designa a representação da faculdade da linguagem: a faculdade mental que distingue a espécie humana das demais espécies animais. Essa faculdade mental que se manifesta através da fala, apresenta certas características tais como: permite aos seres humanos organizar e expressar os seus pensamentos em frases. Tal faculdade é transmitida na herança genética da espécie humana e ativada a partir do estímulo de dados linguísticos que a criança aprende da fala dos adultos,(interação).
      Desse modo todos os seres humanos possuem esse sistema mental que permite ao indivíduo se tornar falante de uma língua natural, portanto, toda frase produzida por um falante nativo de uma língua humana, em situações normais de comunicação oral e escrita, é gerada a partir de um sistema de regras extremamente complexo e articulado, mesmo que essa frase seja considerada "errada"  de acordo co  o padrão normativo/prescritivo vigente, definido pela tradição gramatical.
      Há ainda vários sentidos do termo gramática, para além de designar a faculdade da linguagem, o temo gramática é utilizado com o sentido de qualquer descrição do sistema de funcionamento de uma língua.(princípios e parâmetros que regem as línguas e as diferenciam), e ainda com o sentido referente ao livro que apresenta essa descrição. A tradição gramatical apresenta algumas características como restringir-se apenas uma variedade da língua fixada pela tradição literária, dita padrão; indicar essa variedade como modelo para o uso da língua.
      Assim as gramáticas tradicionais usadas no ensino da língua assumem um duplo papel descritivo e prescritivo. E ainda por buscarem normatizar o uso linguístico, essas gramáticas são também chamadas de normativas.
      O léxico e a sintaxe são partes constituintes da nossa faculdade da linguagem e estes módulos são formados respectivamente por palavras lexicais e gramaticais.
      As palavras lexicais constituem um conjunto aberto, isto é, a qualquer momento um novo verbo, substantivo ou adjetivo pode ser criado em função de objetos atitudes ou conceitos novos que vão surgindo na vida social. As palavras referenciais,(lexicais) têm ainda uma maior facilidade em sofrer modificações ao longo do tempo, de acordo com a necessidade de uso dos falantes.
      As palavras gramaticais, por sua vez, constituem um inventário fechado, pois dificilmente passam por mudanças, logo a criação de um novo item é muito mais difícil.
      Desse modo pode-se fazer a distinção entre palavras lexicais cuja significação remete ao mundo real,  e as palavras gramaticais , cuja significação situa-se no plano do processo linguístico de constituição do enunciado, a sintaxe.
      Vejamos algumas aplicações: frase gramatical sem correção gramatical; ex: "Nós vai viajar amanhã." É uma frase gramatical, visto que os falantes da Língua Portuguesa,(Português Europeu ou Brasileiro), aceitam-na e qualquer um deles pode utilizá-la. Há uma argumento externo, uma locução verbal, seguido de um adjunto adverbial,(de tempo), assim como determina a língua.
       Dessa forma entende-se que  gramaticalidade é um termo distinto de correção gramatical, posto que esta se resume em um conjunto de regras de uma determinada norma, é algo mecânico. A gramaticalidade faz parte do nosso módulo linguístico, enquanto que a correção gramatical  é somente uma questão estética exigida pelos normativistas mas não necessárias à existência da faculdade da linguagem do indivíduo.
        Frase gramatical sem inteligibilidade; " Voltaram aqueles que não saíram." É uma frase gramatical, pois é formada de acordo com o sistema gramatical de uma língua particular- a Língua Portuguesa. Mas sem inteligibilidade, pois como pode voltar/retornar aqueles que não foram, não saíram? A frase apresenta-se sem compreensão.
        Frase gramatical sem aceitabilidade;  ex: Paulo gosta que João pense que Tércio ache que Mara trai Jonas que finge não saber que o vizinho comenta que Caio encoberta essa desfaçatez.
       Gramatical ambígua; ex: "Dei carona a Mário quando estava atrasado." Agramatical mas decodificável; ex: " Noite muito bonita ser." A atividade linguística opera em três planos: linguístico- construção de frases, cognitivo- estruturação de frases em textos, pragmático- o contexto em que essas frases/textos estão inseridos- linguística do discurso.
       O módulo linguístico remete à própria faculdade da linguagem, ou seja, à capacidade que o ser humano  possui de expressar os seus pensamentos em frases. Nesse sentido, todo indivíduo é um falante pleno, no interior do seu universo cultural.
       Em relação ao módulo linguístico da comunicação verbal, a tarefa da escola seria ampliar o repertório linguístico, introduzindo-o sobretudo na variedade linguística utilizada no universo institucional e da produção e transmissão do saber formalizado, já que ao chegar a escola, a variedade linguística que o aluno domina é a linguagem familiar, do senso comum, o saber intuitivo que permeia o nosso cotidiano.
       Por outro lado, a escola deve desenvolver ainda, a consciência do aluno para a diversidade linguística combatendo a discriminação das formas não padrão do uso da língua.



     





     

sábado, 3 de outubro de 2015

DO ORIENTALISMO



                  A crise da representação na literatura brasileira contemporânea, está relacionada à figura do narrador ou da tríade autor-narrador-personagem.
                  Como afirma Regina Dalcastagnè (2008) o ser humano tem a necessidade de ser representado, o problema dessa representação é a questão da voz. Falar para quem? E em nome de quem? Quando se fala no "outro" não se fala dele como ele realmente é, falamos de um ponto de vista, falamos da forma que queremos vê-lo.
                   A partir do momento que o outro é visto dessa forma legitima-se a distância social que existe entre o narrador e o personagem, (o outro). Esse outro na maioria das vezes é visto de forma preconceituosa, pois as características que o narrador encontra nele, (o outro) são contrárias às suas, (narrador) para manter uma distância entre eles.
                    Esse outro é  a massa consumista, pobre, que ainda não possui uma identidade e faz parte de um cenário urbano. Em relato de certo Oriente, Hatoum, (debruça-se sobre um tema bastante comum:  a família e seus dramas, o texto de Hatoum mostra que o refúgio da memória é a interioridade do indivíduo, reduzido e isolado na sua própria história, incomunicável com outro mundo que não  seja o dele.) As separações que a aristocracia que detinha o poder operou a fim de que o "poder" não fosse democratizado, como trata Cancline no seu texto: Os desajustes entre o modernismo e a modernização são úteis às classes dominantes para preservar sua hegemonia, e às vezes não ter que se preocupar em justificá-las, para ser simplesmente classes dominantes. Na cultura escrita, o conseguiram limitando a escolarização e o consumo de livros e revistas. Na cultura visual, através de três operações que fizeram possível às elites reestabelecer repetidamente, na frente de cada câmbio modernizador, sua concepção aristrocratica; espiritualizar a produção cultural sob o aspecto de “criação” artística, com a consequente divisão entre arte e artesanato;  Congelar a circulação dos bens simbólicos em coleções, concentrando-os em museus, palácios e outros centros exclusivos; propor como única forma legítima de consumo de estes bens, a modalidade também espiritualizada, hierática, de recepção que consiste em contemplar. (CANCLINI, 1997, p. 67.
                    O texto de Hatoum se estrutura através de uma estratégia de composição que transita e oscila entre a narração - em que a figura do narrador é extremamente importante e o relato é feito principalmente com base nas tradições orais, como uma tentativa de rememoração das experiências coletivas do passado e o romance que apareceria como um gênero literário decorrente das transformações da sociedade capitalista que destrói cada vez essas tradições.
                    Relato de um certo Oriente é formado por um conjunto de vozes, organizado por uma narradora que retorna a Manaus depois de muitos anos ausente. Essa mulher sem nome procura por Émile, a matriarca de origem Árabe que criou a ela e a seu irmão. O texto é uma extensa carta destinada ao irmão que continua distante de Manaus. Após sua estadia numa clínica, a narradora decide retornar para sua terra natal, e termina por desencadear um despertar múltiplo de memórias, que se estenderam de Manaus até o Líbano.
                    Sobre essa tentativa de narrar sua própria história e as características desse fazer narrativo, Hoisel,(2006) irá afirmar que a concepção gerada pela crítica positivista do Século XIX, passou a valorizar a biografia do ponto de vista que o texto era produto do autor, ou seja, o autor possuía autoridade sobre o seu próprio texto. Hoisel afirma ainda, que o conceito de biografia nem sempre existiu, muitos autores foram criando, de forma que era uma parte da historiografia como um gênero literário, (Como a narradora de Hatoum, se apóia na sua história e nos relatos de outros a respeito de si mesmo para compor a sua autobiografia endereçada a seu irmão.)
                     É a partir do renascimento que surgem as condições históricas efetivas para que a biografia e a autobiografia possam se afirmar como forma discursiva, que se constituirá pela presença do sujeito a partir de um duplo e simultâneo foco: Como o sujeito reage ao mundo e como o mundo reage ao sujeito. Hoisel afirma que na Idade Média faltava essa inter-relação, uma vez que, nesse período, o sujeito ainda não é pensado a partir de suas dimensões psicológicas.
                      Desse modo, Hoisel elenca Rousseau como responsável pelo traços que constituem a autobiografia moderna, o que Costa Lima vai considerar como paradigma da autobiografia moderna, destacando cinco características principais desse gênero: definição da autobiografia como documento de uma vida, narrado por um narrador competente, prazer que o sujeito encontra em se narrar, revelação da sua própria intimidade e a paixão indagadora,(podemos perceber todas essas características no testo de Hatoum, apesar desse texto ser composto de um mosaico de citações- narrativas).
                       Diante disso Hoisel defende que apesar determinados aspectos da biografia já existirem dentro de outros textos, somente Rousseau irá determinar definições mais claras, como a questão do pacto do sujeito com  linguagem. Esse pacto consiste em registrar com veracidade a sua própria vida,(O que pretende a narradora de Hatoum, ao organizar um conjunto de vozes na sua narrativa), desse modo a biografia teria características como: autenticidade, veracidade, exemplariedade, legitimidade. Mais tarde Rousseau irá constatar que na Modernidade, não é possível dizer tudo através da obra autobiográfica, devido a dificuldade que está relacionada à linguagem.
                        Hoisel ressalta que os estudos psicanalíticos  abalam a concepção de literatura,(biografia/autobiografia) no Século XIX, por questionar o poder e o querer autoral, criticando assim, o nascimento do texto, de forma que o autor que o produz trás consigo todas as interpretações "corretas".Hoisel conclui sobre a questão biográfica, que já temos a realidade tal qual ela é; uma produção da linguagem. E interpretar essa realidade só é possível através de um olhar que codifica ou decodifica através da linguagem, levando em consideração o seu contexto histórico, cultural,(conhecimento e experiências passadas), segundo a sua percepção individual.
                        Logo a biografia não é apenas a reprodução do que foi vivido factualmente. A obra é uma vivência imaginária que percorre várias territorialidades onde o autor esteve físico e emocionalmente envolvido, e que resultou em experiências múltiplas. Vale ressaltar ainda as relações do texto de Hatoum e Said,(2003) que objetiva demonstrar como se constitui toda uma área de conhecimento, o Orientalismo, dedicada a reforçar procedimentos de domesticação e naturalização do mundo do outro, o Oriente.
                         Em seu texto Said não percorre essas questões que ainda não apresentavam, naquela época, essa configuração alarmante. Mas as relações se estabelecem naturalmente, e após uma leitura atenta do texto de Said a conjuntura contemporânea se apresenta paradoxalmente, mais compreensível e incontornável, pois são séculos de continuado desrespeito e dominação: O imperialismo orientalista pressupõe: " uma raça submetida, dominados por uma raça que os conhece e sabe o que é bom para eles, melhor do que eles poderiam jamais saber por si mesmos, (a questão da representação do individuo pelo intelectual e sua função social- falar pelo outro). "A realidade orientalista é tão desumana como persistente".
                          Da mesma maneira que Hatoum em seu relato, demonstra a  mesma questão por um viés mais doméstico.

HOISEL Evelina- Grande Sertão Veredas- Uma escrita biográfica. Salvador: Assembléia Legislativa Do Estado da Bahia. Academia De Letras da Bahia, 2006.
HATOUM Milton. Relato de um certo Oriente: Companhia  das Letras 1989.

SAID. Edward W.  Orientalismo:
O Oriente como invenção do Ocidente. Trad. Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
Regina Dalcastagnè (Org.). Ver e imaginar o outro. São Paulo: Ed. Horizonte, 2008.
CANCLINI Nestor G. Culturas Híbridas, São Paulo, Ed. USP, 1997.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Humanitatis





             


                  Gosto das minha rugas, faz-me saber que estou vivo. Que sinto  que amo que sofro  que corro que morro que grito!
                  Gosto da minha tristeza. Faz-me perceber que penso que calo que ajo que luto que envelheço que perco e me perco e me acho e me  vejo dentro de sorrisos que minhas rugas revelam...

domingo, 29 de março de 2015

Vícios.





                    Levanto cedo. Vejo o mundo por signos. Trabalho, corro, canto, amo. Me iludo, me iludo, me iludo... Ouço fantasias, sonho realidades, cicatrizo sentimentos.
                        Vivo conceitos, busco auxílio, perco soluções. O real me rejeita, o ideal me aceita, o tempo me aproveita. Sofro singular e anônimo. Corro na contramão do relacionamento.
                          Cem companheiros, nenhuma companhia. Sempre solitário, dia a dia. Não me iludo com a realidade, sou enganado mesmo, pelos sonhos.


domingo, 30 de novembro de 2014

Reticências...







                     Após a declinação do sol, e diante da presença da lua, a esperança concebeu o abandono. Forasteiro de minhas razões desfiz dos obstáculos: procurei, investiguei, investi.
                     Despi o sentimento, não houve recíprocas. Ressuscitou-se promessas, conversas, sorrisos, mas já era sabido que a realidade não retornaria. Havia fugido há tempos; fora da área ou desligado era a notícia presente. Resposta incompatível não tivera, impossível não se revelara, apenas ouvira sobre a demora, que a distância, seria a energia, o combustível do querer...

terça-feira, 14 de outubro de 2014

MEMORARE







                 Esquecer é uma lâmina cega que fere e amarrota a alma. É uma navalha afiada de fio perene, uma espada de dois gumes que dilacera e estanca o sentimento. 
                 É a vida sem tino, é o amar sem notícias, é o silêncio da ausência. É  esperar sem resposta, olhar para o telefone aguardando que ele toque mas o amor não vem...
             ... É estar inerte no além das emoções tristes, perdido nos domínios da inexatidão.

domingo, 24 de agosto de 2014

QUEER THEORY


           
 
                 Segundo Judith Butler,(1990) quando nos travestimos, não estamos imitando nenhum gênero original, uma vez que gênero já é em si uma imitação de algo que nunca existiu na realidade, que jamais possuiu um "original".
                 Apesar de comungar com as ideias da autora, confesso que nunca havia lido Judith Butler, nem as referências dela. Entretanto quando pensei em falar sobre esse tema , percebi que seu livro seria essencial para desenvolver a minha crítica.
                Sempre fui reflexivo sobre as relações sociais e de poder, além de observador dos discursos e práticas sociais, (as possíveis materializações desses discursos). Percebia que alguns grupos apesar de se afirmarem "comunistas", eram dispersivos, mais pro chute que pra "sólida base teórica" - comunistas que nunca leram "O Capital". Só trechos.
                 O processo transgênero que a sociedade vem passando me aproximou das reflexões da Teoria Queer. Isso me fez perceber queda de sucessivas barreiras. A primeira barreira foi a da naturalidade dos gêneros, (masculino/feminino). Desde que nascemos, ou antes, somos classificados como uma de duas possibilidades: menina, de quem se espera tranquilidade, meiguice, para que no futuro, se tornem doces mamães e "Donas de casa".
                   E menino, de quem se espera agressividade e pontaria, para que no futuro, se tornem "Generais Patton" quem não se enquadra nesse padrão heterossexual e Bi-Gênero, é tido como esquisito anomalia. Em inglês, "Queer." A segunda barreira foi a da congruência necessária entre sexo, gênero e orientação sexual. Essa regra nasce da suposição de que a heterossexualidade seja a "base normal" do ser humano- não é, e as combinações possíveis são infinitas.
                  A terceira barreira foi a do espaço público. Tabus e proibições precisam ser enfrentados interna e externamente. Há o medo da agressão, da perda do respeito, do ridículo. A transgressão "escorrega" para dentro dos antigos modelos, gerando uma busca por representações impossíveis. Possível é superar esse bloqueio ao se compreender a abertura de que dispomos para atingir um novo patamar de auto-aceitação e de  convívio social. Claro que é imprescindível a necessidade  de estender a todas a s pessoas os direitos que foram criados para serem universais. E é isso que a Teoria Queer vem reclamar sacudindo as ideias sobre sexo, gênero e sociedade com questões novas e perturbadoras. Há quem se mantenha distante dessa inquietação toda. Nós porém, preferimos nos apropriar dessa teoria e  fazer refletir sobre a impossibilidade de classificar os seres humanos em limitações de gêneros binários: exclusivamente masculinos e femininos.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O ESPELHO DE ÁLICE


                    Cedo gostava de escrever, ler, recitar. Tinta preta escrevia seus diários. Luto? Talvez... Nunca fora de amar certo, preterida sempre, amava amigos, mas esses não a correspondia.
                     Com os pés no caminho inverso, doava-se por completo, sempre angariando o tédio. Crescera nesse interstício- amor-dor-vexame-confusão. Alienaram suas emoções, buscavam definição: sofrimento como paga por tal transgressão.
                      Entretanto aprendera de Eliot: " que o fim de toda busca será chegarmos onde começamos e ver o local pela primeira vez." Iniciara agora de outra forma, porém da mesma maneira. Confiante e disposta a entregar-se. Antes do trigésimo dia, a decepção: a verdade em ação. Resolvera perdoar, relevando, amou a distância, transpareceu felicidades vivendo novidades.
                      Amanhecer. No reflexo visualizava o desejo, o conserto do mundo, a ordem das coisas, a arbitrariedade do signo, contrariedade no amor. Desejava abandonar a compreensão, conhecer a paixão, realizar a satisfação.

sábado, 21 de junho de 2014

INVERNO






                        O amor é autônomo, independente. Acontece e então! Não pede, não manda, não constrange, não culpa, não solicita, não exige, não condiciona, não vinga-se, não decepciona, não abandona, apenas ama.
                         Ama sem precedentes, sem recompensas, apenas alimenta o sentimento com uma chama abnegada. Doa-se, sacrifica-se, submete-se, e ao final, transforma-se para renascer em perdão.
                         




sábado, 14 de junho de 2014

SISTEMA EDUCACIONAL E SOCIALIZAÇÃO.


                 


                   Para Durkheim (1978), o sistema educacional formal se impõe ao indivíduo de maneira e modo irresistível. Áreas como a política, a sociedade e a família influenciaram grandemente de maneira a interferir na composição desse sistema educacional.
                    Na educação formal o indivíduo encontra-se no ambiente propício onde ocorre ou deve ocorrer essa educação, são eles: escolas centros de aperfeiçoamento ou capacitação projetos educativos etc. Nesse ambiente a educação se dá de forma sistematizada e metódica.
                     Por outro lado na educação informal, o sujeito adquire experiências através do meio em que se encontra e se desenvolve, são hábitos e costumes adquiridos por classes, grupos, nos quais esses indivíduos  estão inseridos. O aprendizado ocorre de maneira espontânea.
                     Segundo Durkheim (1978), a educação varia de lugar para lugar, de classe social para classe social, o que o autor classifica como heterogeneidade da educação, somente as sociedades pré-históricas terão um modelo de educação homogêneo,(tribo indígena) caracterizado pelo processo mecânico, e repetitivo, ou seja, mecanicista, automático.
                     Durkheim (1978), define educação como preparar , instituir valores e padrões mentais, suscitar estados mentais, intelectuais e físicos reclamado pela sociedade política.
                        Tal definição não dá conta de conceituar a educação, pois não podemos mudar ou alterar, ou ainda, transformar totalmente o indivíduo estando o mesmo sempre a mercê do contexto social, político e econômico da época em questão. Logo a educação varia no tempo, história e lugar. Percebemos isso se analisarmos o confronto das gerações atuais com os modelos educacionais ultrapassados.
                     Durkheim propõe um conceito básico de educação: ação de uma geração adulta sobre uma geração em faixa etária inferior. Essa educação tem por finalidade agregar ao ser egoísta e associal uma natureza capaz de vida social e moral visando a integração do indivíduo na sociedade, objetivando a conservação da ordem social,(consciência coletiva).
                      Tal processo de socialização para Berger e Berger seria a imposição de regras ou padrões sociais à conduta individual. Isso se constitui através de um poder de constrição: adulto>criança.
                       Os autores afirmam ainda, que durante o processo de socialização do indivíduo este desenvolve representações para os sujeitos que participam desse processo, os mais próximos que atuam de forma ativa através de procedimentos simples como ensinar como realizar as necessidades básicas, ou procedimentos complexos como a educação formal, no seu desenvolvimento são caracterizados como "outros significativos" e os de menor contato social são denominados "outros generalizados".
                        Podemos perceber também sobre a complexidade da apreensão do mundo pelo indivíduo que está no processo de socialização que o mesmo é composto de duas facetas da sua individualidade: o eu e o me.
                        O "eu" representa a consciência espontânea ininterrupta da individualidade que todos nós temos. Já o "me" representa a parte da individualidade que foi configurada pela sociedade.
                         Daí que a socialização para Berger e Berger envolve processos simples e complexos.     
                       
                   

quarta-feira, 11 de junho de 2014

DESFECHO


                     Estou só, estive só, ando só. Será? Tive  a alma desnudada por recente. Beijei uma nuvem de felicidade, mas fora efêmera.
                      Tentei, esforcei, insisti, mas  no  final não adiantou, relevei, acreditei, renunciei a tudo: caprichos, orgulhos, amor, dor, e paciência, mas ao final não consegui.
                      Foi-me tirado tudo, em instantes felizes. Amanheci devastado, desolado, saqueado, subtraíram minha emoção, minha razão, minha satisfação.
                       Meu coração completo foi feito abjeto, meus sentimentos diletos tidos supérfluos. E o que dizer do amor? Triste castigo indireto que aprisiona a alma ao incerto, fazendo cada dia incompleto.

domingo, 1 de junho de 2014

CONSTERNAÇÃO





                     Vida de retinas fatigadas, olho o tempo, sinto o vento, corro o momento. Estou só, no desespero, no desapego, no silêncio. Penso muito, nada sei; negar bastaria?
                      Ignorar não altera a realidade. Enfrentar talvez. Escapar, fugir, deixando lembranças, qualquer uma.
                      Fingir que  reafirme quem és. Agora já não sabes. Perdera-se numa espiral de recordações vorazes.
                      Em seu pensamento vive sozinho, desiludido, desenganado , desacompanhado. Instante molesto, no ritmo momentoso, perseguindo o alento num turbilhão adverso.

terça-feira, 27 de maio de 2014

FUGA





                    Um dia amante, um dia fugitivo, um dia feliz, outro bandido. Confuso sempre, permanentemente esquecido.
                     Felicidade devia ser proibido. Ela vicia, terrível como droga, é a droga da alegria. Quando se vai torna tudo monotonia.
                     Enquanto podes, não queira acordar a agonia, a angústia da abstinência da felicidade de um dia. Só. Depois de tudo, o que resta, é o despertar da maresia.
                      As lembranças estarão torturando a consciência com momentos possíveis, perdidos, proibidos, relegados, não vividos.