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A língua está em mim, me perpassa, faz parte da minha formação como ser social inserido num grupo. Compõe ainda a minha própria formação acadêmica já que resolvi após o primeiro curso superior (Administração), cursar Letras. Essa língua me representa em todos meus conflitos, pois suas características são iguais as minhas, um ser multifacetado, de exterior sóbrio e estático, mas no íntimo um turbilhão em movimento. Assim como um rio congelado que apresenta a sua superfície estática, mas o seu interior está sempre em movimento, num curso perene. Capacidade de adaptação e compreensão com singularidade e regionalidades tolerantes como próprios à língua. Escrever é para mim, como respirar, sinto essa necessidade e é através da escrita como afirmou Aristóteles que transitamos desde o terror até a piedade de nós mesmos e do outro. Esse ofício da escrita nos eleva, nos projeta, nos ressignifica quando tocamos o outro com as nossas palavras, seja no universo ficcional, biográfico ou autobiográfico. Escrever é uma necessidade, escrever é transpirar no papel as nossas leituras.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

CONTINUUM FALA - ESCRITA


Segundo Hilgert (1991) a língua escrita não constitui para a transcrição. Ao mesmo tempo, não basta que a língua seja realizada oralmente, constituindo produto perceptível pela audição, para ser considerada falada.
A oralidade é uma característica essencial da língua falada, mas não o suficiente, o que faz com que notícias transmitidas por rádio ou tv, por exemplo, se caracterizem pela oralidade, mas não pelo caráter falado. São de fato, textos escritos realizados oralmente.
Assim as diferenças entre língua falada e língua escrita são de outra natureza, elas resultam de diferenças entre os processos de falar e de escrever, ou entre condições de produção do texto falado e do texto escrito.
Tomando como exemplo a conversa no MSN podemos perceber que apesar de ser digitado numa interface de comunicação (mídia), quase face a face (dialógica), salvo se existir a webcam para intermediar o contato entre os falantes (apresentação da imagem dos indivíduos), ainda assim, constitui-se língua falada, pois não apresenta as características da língua escrita que são: escrever constitui um ato solitário, não há interação, o escritor elabora o texto sozinho, o texto escrito não deixa marcas no processo de planejamento, se apresentando como um todo coeso, sintaticamente complexo.
Assim a língua falada é caraterizada por um contexto específico, constitui uma tarefa cooperativa entre falantes num mesmo momento e espaço, ou seja, a língua falada é caracterizada pela dialogicidade (dialogismo), instaurada pela situação face a face.
Desse modo, segundo Preti (2000), a língua apresenta uma tendência para o não planejamento, ou ainda de acordo com Ochs (1979), a língua falada é planejada localmente, ou seja, constitui uma atividade administrada passo a passo. Assim planejamento e realização do discurso coincidem no eixo temporal, ou são praticamente concomitantes.
Por fim, para Chafe (1982), a língua falada apresenta a característica da fragmentação, ou seja, é produzida aos jatos e borbotões, que são unidades de ideia, ou significativas com um contorno entonacional típico, e limitados por pausas. A passagem de uma unidade para outra se dá muito rapidamente, tornando o processo de falar bem mais acelerado do que o de escrever.
Logo, na língua falada as frases se apresentam mais independentes uma com relação às outras.

MAS AFINAL, COMO ENSINAR A LÍNGUA PORTUGUESA?


Castilho (2001), propõe que conheçamos a língua portuguesa que ensinamos (português brasileiro) e a língua falada no ensino de português (o contexto, a realidade linguística do aluno). De maneira que possamos documentar, descrever e historiar a fim de renovarmos o ensino do português no Brasil.
 Para o autor as nossas metodologias ainda são incipientes, motivo pelo qual nunca atingimos os resultados almejados no ensino do português, por estarmos sempre apoiados em realidades outras, fora do nosso contexto sócio educacional (Países hegemônicos do centro).
O autor afirma ainda que fazemos vista grossa para a realidade do ensino de língua materna, deixando de identificar as línguas: da escola (gramatica normativa/ prescritiva e norma padrão) e a do aluno: a norma popular, o que inviabiliza a aplicação da metodologia ideal para ensino da língua.
Desse modo entendemos que para Castilho (2001), o ensino de língua deve partir da reflexão sobre a língua, e do conhecimento prévio do aluno, a língua falada (conversação), para só então, avançar para o conhecimento socialmente valorizado ( o currículo), utilizando para isso, as teorias linguísticas que melhor favoreçam essa reflexão e transposição didática.
Schleicher (2005) por sua vez, afirma que a melhoria da qualidade e da equidade na educação se dará através de programas de fomento do desenvolvimento educacional.
Como o PISA (Programa de Avaliação de Ensino), que avalia e compara o  modelo de ensino nos países desenvolvidos (centrais) e apresenta dados quantitativos que apontam a melhoria no desenvolvimento do modelo educacional desses países que adotaram esse modelo de avaliação.
 Para Schleicher, não há determinismo, ou relação implícita entre riqueza e desenvolvimento e modelo educacional eficiente, o autor defende que qualquer país poderá obter um modelo educacional eficiente se aplicar a metodologia de análise e melhoria contínua na educação dos indivíduos, essa metodologia é projetada a partir do modelo dinâmico de aprendizagem.
O autor defende ainda os fóruns profissionais ligados à área de educação e sua importância para a socialização do conhecimento escolar a fim de promover um conhecimento compartilhado, trocas de experiências e desenvolvimento profissional.
Desse modo percebemos que o autor busca a emancipação ou empowerment do profissional docente ao afirmar que as políticas e as práticas devem estar na responsabilidade dos professores de maneira que os mesmos sejam preparados para assumirem essas práticas.
Assim, semelhantemente como Castilho aponta para a necessidade de uma reflexão sobre a metodologia do ensino de língua materna no Brasil, Schleicher orienta sobre a importância do desenvolvimento de políticas  que favoreçam a melhoria do ensino e da aprendizagem dos indivíduos no âmbito geral de educação, e isso só se fará através da transposição didática das pesquisas científicas nas áreas da Linguística e da Educação levando em consideração a nossa realidade educacional.

domingo, 19 de agosto de 2012

MODERNISMO sem MODERNIZAÇÃO


Santiago (1989) trata acerca de como o poder de repressão do governo tentou calar a voz da democracia de um modo geral, e como intelectuais utilizaram suas obras para criticar violência desse poder, daí que em seu texto, o autor menciona a concepção de democratização no Brasil e não democratização do Brasil, por considerar que apesar desse “movimento democrático” ter chegado ao Brasil, ele não é legitimado por completo, uma vez que, ainda existe minorias que não possuem voz no discurso.
Sobre essas minorias que disputam lugar (espaço) na sociedade, direito de falar e de serem ouvidas, podemos citar o discurso de Foucault (2004) que trata sobre a necessidade de dar voz a classe que se está representando. Nesse sentido, o governo ao representar a nação, não pode apenas valorizar certas “classes” em detrimento de outras, no caso, as minorias – as mulheres, os negros e os homossexuais.
Na tentativa de representar essas classes os intelectuais falham, pois não se reconhece a voz do representado no discurso social, antes esses intelectuais atrapalham, por assim dizer, a liberdade de expressão dessas classes que permanecem à margem. É como se tais intelectuais funcionassem como paliativo para que ao reportarem a voz dos marginalizados, esses permanecessem nos seus respectivos lugares sem “desorganizar” a geografia social (topografia), acreditando que estão sendo bem representados e possuem voz no discurso, perpetuando o ciclo do poder nas mãos da antiga aristocracia.
Sobre essa topografia social, Connor (1997) trata de definir os espações sociais demarcando o poder, de modo que, no centro prevalece o intelectual, o rico, o branco, a concepção patriarcal (modelo) e as ideologias machistas, enquanto que à margem, na periferia estariam  os vários grupos marginalizados.
Connor afirma que essa relação é instável, constantemente trava-se uma batalha no campo social, ideológico; através de produções artísticas, seja a música, a literatura, a arte, ou a política para disputar esse poder (espaço) ao centro.
Diante disso, percebemos a fragmentação do poder, esse poder não se encontra enraizado numa única instância, mas é operado nos vários discursos que perpassam esse modelo social que se afirma democrático, no entanto percebemos falhas nessa “democracia”.
Daí que Cancline irá afirmar que esse modelo (movimento democrático) é contraditório no Brasil, por conta que apesar de revolucionar o campo artístico, não operou as grandes transformações (como uma redistribuição igualitária dos espaços sociais – o poder, a voz, a visibilidade aos invisíveis socialmente representados) que ocorreram na Europa.
Vale assinalar que toda essa problemática irá promover uma transformação na concepção da literatura contemporânea que será pautada nas temáticas das minorias (os que habitam a periferia na topografia social) e que será denominada literatura marginal por seus representantes não possuírem visibilidade, apesar dessa literatura possuir força e coerência.
É importante mencionar a crise da representação que é uma marca da literatura brasileira contemporânea, uma vez que, se dá conta que o autor-narrador-personagem se confundem e de distanciam, o intelectual já não possui uma “função”, pois o que esse intelectual objetivava, se torna indigno, já que para representar o outro era necessário conhecê-lo e partilhar das suas “angustias”, mas esse intelectual prefere marcar o seu lugar de fala, sua posição no discurso, deixando bem claro, bem estabelecido os limites dessa topografia social.
Desse modo, Canclini (2003) irá tratar sobre contradições do modernismo, pois segundo esse autor, esse movimento foi copiado (exportado da Europa para o Brasil), no entanto perdeu a “força” transformadora ao cruzar o atlântico, pois não operou as mesmas transformações sociais e políticas aqui na tribo tupiniquim.
Isso se deve, em grande parte a própria posição do governo e das classes que detém o poder e que através de estratégias de legitimação abafaram esse movimento, impedindo a circulação da cultura às classes mais baixas (poder simbólico), freando o desenvolvimento e avanço das classes marginalizadas para as regiões onde se encontra localizado o poder, legitimando, assim, o grande abismo social entre o centro e a periferia.
Diante disso, Canclini considera que esse movimento modernista havia falhado em seu maior propósito aqui no Brasil, uma vez que, não operou a modernização, igualitando o poder perante as classes sociais.


A LITERATURA COMO FORMA DE RESISTÊNCIA.


A distinção básica que caracteriza tematicamente a literatura pós 64 é o fato que essa literatura deixa de apresentar como tema principal a exploração do homem pelo homem, tema esse que foi dramatizado pelo processo de conscientização político-partidária de atores sociais pertencentes à classes do campo e operário que criticavam de forma velada ou aberta à oligarquia rural e ao empresariado urbano.
É pelo abandono gradativo desse tema que a literatura pós 64 se diferencia da literatura engajada e encontra a sua originalidade temática. Refletindo sobre a maneira como funciona e atua o poder, a literatura brasileira pós 64 desenvolve uma critica radical contra o autoritarismo.
Nessa crítica ao autoritarismo e ao poder militar, a literatura pós 64 se distancia ideologicamente dos anos 30, aliado a isso, as diversas facções da esquerda se aglutinam em uma única frente de resistência a qualquer forma de ditadura inclusive a do proletariado, todos esses fatores irão direcionar o foco da literatura brasileira contemporânea para a “violência do poder” que se torna a principal característica temática da nossa literatura contemporânea. Dessa forma o escritor brasileiro contemporâneo (pós 64), põe em segundo plano nos seus textos a dramatização de temas universais e utopias da modernidade.
A opção dramática dessa literatura contemporânea se inscreve nos temas que, no particular e no cotidiano, na cor da pele, no corpo e na sexualidade. Ao tratar corretamente a questão do poder, a literatura investiu contra os muros que aprisionavam o intelecto, a ação, a constituição do espaço e o direito de gritar dos indivíduos.
Logo percebemos que essa literatura contemporânea pós 64 não carrega mais o otimismo social que edificava antes o texto literário, abandona os tons grandiosos e a alta retórica assumindo uma postura amena e divertida em tom coloquial para tratar dos problemas (temáticas) contemporâneos do nosso país.
Santiago (1989) trata sobre a questão do intelectual, suas produções artísticas e a relação entre esse seu fazer artístico e a  política (cenário da Democratização no Brasil) no que tange a como esse intelectual interfere na sociedade através do seu poder e conhecimento, além do seu lugar de destaque perante a massa. O autor busca evidenciar as principais transformações na literatura brasileira, demonstrando assim, como os intelectuais contemporâneos utilizaram a literatura como um veículo crítico-informacional com a intenção de denunciar esse novo modelo governamental, sua forma de funcionamento e a violência do poder.
Sobre essas novas temáticas que a literatura brasileira contemporânea assume, vale ressaltar que autores como Caio Fernando de Abreu e Clarice Lispector, em suas respectivas obras morangos mofados e a Hora da Estrela, irão tratar de temas como a homossexualidade a as mazelas sociais como a pobreza, a ignorância e a alienação das massas.

AS POLÍTICAS DE CONTATO: Trajetória dizimada dos Indígenas e trajetória dilacerada dos povos africanos escravizados.



Mattos e Silva afirma que não houve uma política de contato controlado.
A princípio os portugueses objetivaram aprender a língua indígena através da permanência de quatro representantes (dois degredados e dois grumetes) aqui no Brasil.
Porém esse objetivo não funcionou, e o processo de colonização se deu através da construção de um Tupi jesuítico – a língua geral da costa,  de base tupi, chegou a ameaçar a hegemonia do português no Brasil, juntamente com outras línguas gerais indígenas que foram veículos de intercomunicação entre brancos, negros e indígenas no litoral brasileiro, entradas paulistas, no nordeste teria sido uma língua geral Cariri  e na Amazônia a língua geral de base tupinambá.
Diante disso, podemos observar que somente através da política de contato controlado iremos evitar um novo percurso etnocida e glocitocida.
Podemos citar ainda como exemplo dessa política de contato controlado, o caso do Parque Nacional de Xingu, onde sobrevivem quinze grupos indígenas, com suas línguas de origem e como língua franca de intercomunicação entre as tribos, aflora o português xinguano – uma das variantes do português brasileiro, evidenciado um continuum linguístico.
Sobre a trajetória dilacerada africana a autora salienta que os negros foram selecionados negativamente a fim de que não se adenassem em um ponto qualquer, étnica, cultural e linguisticamente. Tal fato contribuiu para a riqueza de línguas africanas no território brasileiro, o que contribuiu para integração de itens lexicais no nível morfológico e maior número de campos semânticos no português do Brasil.
Desse modo, Mattos e Silva defende a ideia do multinguismo no português brasileiro que apresenta caráter heterogêneo devido às suas variantes.
Vale ressaltar que enquanto os índios foram dizimados, muitos negros dilacerados à partida e em seguida acantonados, em locais de refugio, ou para sobreviver ou ainda para tentar vencer seus opressores vencidos os quilombos, restaram em múltiplos pontos do Brasil grupos que se defenderam sob a proteção natural e que aos poucos se revelam.
A grande maioria dos negros, contudo, integrou-se nas cidades e nos campos à sociedade multiétnica brasileira em formação.
Segundo Mattos e Silva (1992), em 1757, com o Marquês de Pombal, se define para o Brasil uma política linguística e cultural.
Pombal define o português como língua da colônia, consequentemente obriga o seu uso na documentação oficial e implementa o ensino leigo no Brasil. A miscigenação e a presença não maciça de portuguesas são indicadores favoráveis à formação de uma língua geral brasileira caracterizada pela influencia africana, embora mais próxima do português europeizado.
 Podemos concluir segundo A. Houaiss (1985), que o português brasileiro nasce com diversidade.